Água

Por  Richard Jakubaszko

O crescimento explosivo das cidades, especialmente depois da II Grande Guerra Mundial, somado ao descaso dos poderes públicos e à falta de consciência da população em geral faz com que boa parte dos rios urbanos do Brasil e de muitas cidades no exterior mais pareça uma extensão de lixeiras e esgotos. A falta de tratamento de esgoto e o descarte de poluentes residenciais e industriais são os grandes vilões para essa situação.

Sabemos que os 500 maiores rios do planeta, especialmente os urbanos das grandes metrópoles, exibem problemas quase insolúveis com a poluição, conforme dados da ONU. Entretanto, algumas cidades lograram transformar rios poluídos e fétidos em cenários de alegria e vida, como o rio Sena, em Paris, e o rio Tâmisa, em Londres, trazendo esperança a seus cidadãos e fornecendo exemplos para inspirar alhures as autoridades de outras cidades para que persigam e conquistem resultados semelhantes. Os rios Tietê e Pinheiros, em São Paulo, continuam mortos, verdadeiros esgotos a céu aberto. Vejo que há mais de 40 anos os sucessivos governos estaduais gastam fortunas para retirar lodo do fundo dos dois rios, mas os esgotos residuais e industriais continuam sendo despejados neles.

A água é o elemento de maior importância para a vida. A água é um composto químico, e é a molécula mais abundante na superfície da Terra, cobrindo, somente em sua forma líquida, 71% do planeta, nos mares e rios, além de estar presente em abundância na atmosfera terrestre, como vapor, e nos polos, como gelo.

 Entretanto, com uma frequência que pode chegar até a saturação, levando-nos ao quase desespero, chega até nós o insistente aforismo: “a água doce é um bem escasso; pior ainda: está se esgotando”.

Adicionalmente, vindo não se sabe de onde, aparecem argumentos de que o planeta tem água, sim, mas que é água salgada dos oceanos, e o que vai faltar é água doce, água para beber.

Por vezes chega-se ao paroxismo de anunciar que a Amazônia caminha à desertificação. E num extremo de descontrole, alguns exacerbados espalham o pânico irracional de a Terra toda transformada num planeta desértico como Marte ou a própria Lua.

Visando atemorizar, por vezes manipulam-se fatos restritos a uma região, astuta e indevidamente projetados a todo o planeta com insinuações, jogos de palavras, imagens, ou falta de respeito pelo leitor, tudo apontando para um futuro remoto ou indefinido sempre catastrófico.

Uma xícara de café gasta 140 litros de água!

Richard Jakubaszko

No subtítulo está a manchete que foi publicada na mídia e na blogosfera. A mídia acrítica e especialmente a blogosfera repercutiram tudo, sem quaisquer questionamentos, demonstrando um ambiente completamente idiotizado. Sintetizo abaixo, em itálico, o que foi relatado. Na sequência faço alguns comentários que me parecem relevantes sobre as causas da falta de sentido crítico da mídia.

“A produção de uma xícara de café exige 140 litros d’água”, anunciou a organização de proteção do meio ambiente Fundo Mundial para a Natureza (WWF), em comunicado divulgado dia 13 de março 2012 à margem do Fórum Mundial da Água, celebrado em Marselha, sul da França. A ONG calcula quantos litros são usados na produção da bebida, desde seu cultivo até a fabricação da xícara. Assim, uma xícara de café equivale ao gasto de 140 litros de água, dependendo do material do recipiente e da origem do açúcar.

 A organização ambientalista aplicou um indicador elaborado pela Universidade de Twente, na Holanda, para registrar a “pegada hídrica” da xícara de café, que leva em conta o impacto de toda a cadeia de produção na fonte de água doce.

 O cálculo de 140 litros para uma xícara de café compreende, segundo o WWF, a água usada no cultivo do pé de café, na colheita, no transporte, na venda e no preparo, explicou a ONG. O indicador inclui, ainda, o volume d’água necessário para a fabricação da xícara em que se bebe o café.

 “Se forem adicionados leite e açúcar ao café, e se um copo de plástico for empregado para servir a bebida, ‘a pegada hídrica’ de uma xícara de café passará para 200 litros, com variantes se o açúcar for branco, procedente da beterraba, ou mascavo, da cana-de-açúcar”, acrescentou.

Esse é o perigo, deram uma calculadora para algum ambientalista, talvez com talento para ser economista, mas sem nenhuma visão holística, ou sistêmica, e sem nenhuma percepção do que é o todo. O resultado é semelhante ao de se entregar uma metralhadora nas mãos de uma criança com raiva. Da mesma forma, é o resultado de se entregar um espaço jornalístico, na mídia eletrônica ou impressa, a jornalistas despreparados para a função e para a vida.

A premissa dessa questão é o paradigma de que vai faltar água potável (água doce) para abastecer os 9 bilhões de pessoas que teremos no planeta dentro de 25 ou 30 anos, pois apenas 3% da água existente no planeta é doce, e 97% é salgada.

Primeiro erro: água não acaba. Não existe nada na natureza, nem na química ou na física algo que faça a água sumir, à exceção da eletrólise, que é processo laboratorial, para pequenas quantidades, e custa muito caro. A mesma quantidade de água que existe hoje, existia há 2 ou 3 milhões de anos atrás. E será assim no futuro. A água se recicla permanentemente, sempre nos 3 estágios que conhecemos: líquido, sólido ou gasoso. Aliás, o planeta deveria chamar-se “Água”, pois de terra há somente 29% na superfície da nossa casa.

Segundo erro: a calculadora do economista-ambientalista (que é holandês) ensandecido partiu da premissa de uma estatística já antiga feita em países com pouquíssima água (como Israel e Espanha). Nesses, o problema da água é crítico: “descobriram” que 70% da água consumida eram usadas na irrigação, para agricultura e pecuária, 20% pelas indústrias e 10% por consumo humano. Entenderam (na verdade, decidiram…) que isso levaria ao caos do planeta. Dever-se-ia economizar água na agricultura, e, portanto, os perdulários dos produtores rurais teriam de ser contidos a qualquer custo. Daí para campanhas que atacam o consumo de água pelo boi, e agora pela xícara de cafezinho, foi um pulo muito pequeno. Ignoram que o boi faz xixi. Esquecem de que bebe água de chuva, mas calculam como débito a água da chuva, no pasto e no cafezal, como “água gasta e consumida”. Na tal calculadora não há créditos.

Terceiro erro: o critério de “pegada hídrica” desenvolvido pela Universidade de Twente, na Holanda, não tem aceitação internacional em nenhuma outra universidade, pois utiliza métodos estapafúrdios e emocionais, sem base na boa ciência. O referido indicador nem é polêmico, ele simplesmente não é aceito como ciência. Desta forma, a ONG WWF pega um factoide monstrengo, acrescenta comentários, e a mídia digere e divulga acriticamente todas as besteiras convenientes.

Nesse ínterim, passamos aos “controles e à gestão da água”, eis que para irrigar sua lavoura o agricultor (principalmente o brasileiro) deve fazer “estudos de impacto ambiental”. Numa boa, ambientalistas e especialistas de água, como que surgidos do nada, passaram a faturar uma graninha extra em consultoria, e as agências reguladoras proliferaram mundo afora. Não se financia um pivô de irrigação (que custa algo na casa de 1 milhão de reais) sem que haja um “estudo de impacto ambiental”. Fazer uma barraginha ou poço artesiano é quase um crime ambiental. Se a gente contasse isso para um visitante extraterrestre ele iria embora, em definitivo… As sutilezas e firulas do raciocínio ambientalista, tipo se for açúcar cristal branco ou mascavo é hilária, mas tenta dar embasamento ao “estudo científico”. Como diz o ex-ministro Delfim Netto, toda estatística bem torturada confessa qualquer coisa…

Ora, água é vital à vida! Por isso os cientistas procuram sinais de água em planetas pelo universo infinito. Até o ponto de achar que a água é vital a gente concorda com os ambientalistas. O que se deve ter em mente, de forma clara, é que o consumo de água, em qualquer situação, seja agrícola ou industrial, não “gasta” água, apenas interfere em seu processo. Quando usada na agricultura, na forma de irrigação, ou também por chuvas, como é calculada na métrica neurótica e emocional dos ambientalistas-economistas, a água não vai para o “quinto dos infernos” como costumo afirmar em conversas com amigos. Essa água revitaliza o solo, dá sustentabilidade à produção de alimentos, é filtrada em suas impurezas, e vai para o lençol freático. Dali retorna para os rios, ou vai temporariamente, para os aquíferos, e depois chega aos mares. Nos oceanos haverá evaporação, que formam as nuvens, e estas, depois de centenas ou milhares de quilômetros percorridos, se transformam em chuvas. É o destino de toda água, em todo o planeta, inexorável, queiram ou não os ambientalistas. A ciência chama isso de Ciclo Hidrológico, e é uma das primeiras coisas que uma criança aprende na matéria de Ciências, ainda no ensino fundamental…

Outro argumento que costumo utilizar é de que, seja para irrigação ou qualquer outro destino, quando a humanidade urbana ou rural usa água dos rios, usa tão somente, e quando muito, apenas 1% do volume de água do rio. Ou seja, no cálculo acima, a ONG e a universidade criticavam o uso de 70% de água da parte de apenas 1% do que foi retirada do rio, pois 99% da água vai para o mar…

Urbano versus rural?

Portanto, quando o homem interfere no ciclo de vida da água (doce), e faz com que cada gota de água demore mais tempo para chegar aos mares, estará beneficiando e dando “sustentabilidade” à vida. É simples e cristalino. Ao contrário disso, os urbanos, especialmente em grandes núcleos populacionais, emporcalham a água de seus rios com esgotos, resíduos e entulhos, tornando esses rios poluídos e sem vida. Com uma agravante perversa: as grandes cidades não possuem lençóis freáticos, pois estão asfaltadas, concretadas, cimentadas e azulejadas. As árvores não têm espaço para receber água em suas raízes, por esta razão desabam com ventos apenas um pouco mais fortes. Como há pouca evapotranspiração as cidades são mais quentes e por isso recebem mais chuvas, para esfriar. Mas quando chove as águas não penetram no solo impermeabilizado, rolam céleres para os rios poluídos, inundando tudo pelo caminho, até as partes mais baixas das cidades, tudo isso agravado pelas bocas de lobo entupidas de lixo. E depois sai no jornal que os produtores rurais é que são poluidores…

Insanidade humana e ambiental! Não há dúvidas de que os ambientalistas-economistas são urbanos, trabalham no ar condicionado de seus escritórios, fazem 3 refeições ao dia, e nunca se perguntam de onde vem o alimento que consomem. Estes são comprados no supermercado do bairro, e isso é o suficiente para eles. Da mesma forma, os colegas jornalistas que repetem as ensandecidas invenções das “pegadas ecológicas”.

Na visão e opinião dos ambientalistas urbanos, e também de alguns jornalistas mal informados, o produtor rural é um criminoso ambiental. Por isso, precisa ser execrado e queimado em praça pública, como exemplo de punição exemplar… Já escrevi sobre isso dúzias de vezes, chega a dar cansaço mental repetir as mesmas coisas, e um desânimo enorme de ver que os ambientalistas, ainda por cima, se acham no caminho certo, e possuem a certeza de que ganharão o reino dos céus pela sua luta verde. Eles querem a punição de todo agricultor que plante em pé de morro, através do Código Florestal, por exemplo. Querem proibir e proibir. Esquecem que o que desaba e desmorona é morro urbano desmatado, mal urbanizado, com construções sem fundações, nas chamadas favelas. Com esse raciocínio e essa mentalidade emocional desequilibrada, encaminham-se para fundar uma sociedade ambientalista supranacional. Querem governar o mundo! E aquilo que imaginam e especulam proibir hoje poderá virar lei no futuro.

Vejam que cálculo ridículo, qual o sentido prático de saber que uma xícara de cafezinho de 60 ml gastou 140 litros de água? Que fossem 500 litros! Eles que parem de tomar cafezinho e de comer suas picanhas, assim não se sentirão culpados, pois quem sente culpa e quer punir a todos por isso não ganha o reino dos Céus…

Pai do Céu, perdoa-os, eles não sabem o que fazem! Mas manda esse pessoal pensar, ao menos isso! E que a mídia não replique mais essas bobagens!

* o autor é jornalista, autor de 4 livros, além de blogueiro: http://richardjakubaszko.blogspot.com

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